Minha lista de blogs

terça-feira, 2 de março de 2010

Apaixonantes vigaristas



Logo no início o estilo usado para abertura e a trilha sonora de “Vigaristas” (The Brothers Bloom, EUA, 2008) nos remetem aos tradicionais filmes de gângster. Porém, a apresentação dos irmãos Bloom (protagonistas do longa) ainda crianças trajando camisa branca, casacos, tênis e chapéus pretos, aliada a vilania natural do mais velho e sua voz macabra, já mostra alguns elementos satíricos do segundo filme dirigido por Rian Johnson.

Aliás, os primeiros minutos de projeção representam uma das sequências mais importantes para a continuidade do filme. É a partir deles que conhecemos os talentos de Stephen (Mark Ruffalo), a inocência/insegurança e o romantismo de Bloom (Adrien Brody) e a relação de dependência mútua existente entre os dois órfãos. A rejeição dos diversos pais adotivos e o primeiro golpe planejado – tudo apresentado pela voz de um narrador com tons de velho-oeste – é a melhor introdução entre as mais recentes comédias. A volta para o presente mostra que tudo isso se repete na vida adulta dos irmãos.

A dupla cresce e rapidamente Johnson nos apresenta a vítima da vez, Penelope (Rachel Weisz). Uma moça com mais de trinta anos que foi criada entre quatro paredes, isolada do mundo exterior e do convívio social. A inocência da personagem gera algumas cenas de humor pastelão que caem como uma luva nas mãos de Rachel. A atriz, que não tem origens na comédia, dá um tom suave e muito natural a sua milionária, tornando fácil a tarefa de se empolgar junto com ela em cada aventura vivida pelo grupo de golpistas do qual ela passa a fazer parte.

Mas “Vigaristas” não é uma comédia pura. O diretor também soube valorizar bem os momentos de ação e tensão do longa. Com trilha sonora sempre em sincronia com o que vemos na tela e ótima fotografia de Steve Yedlin, fica difícil lembrar que se trata de uma comédia e não levar a sério as armações do grupo.

Uma segunda conferida no filme possibilita perceber que Rian Johnson, como em um bom suspense, deixa algumas pistas importantes para o desenrolar da trama que podem passar despercebidas na primeira vez que assistimos. Além disso, duas surpresas positivas podem ser encontradas no longa. Primeiro: “Vigaristas” é muito mais que uma comédia. Há nele fortes elementos de humor, mas a obra também cumpre com competência as funções de ação/suspense e aventura. Segundo: a forma como os golpes executados formam uma teia que vai interligando tudo, fazendo com que várias vezes pensemos, erroneamente, estar diante do final.

Outro ponto forte de “Vigaristas” é a sincronia existente entre o elenco. Mesmo Bang Bang (Rinko Kinkuchi), que quase não tem falas, se encaixa perfeitamente na “quadrilha”. Um pouco mais de atenção mostra que alguns elementos a respeito da relação da oriental misteriosa com o mundo do crime poderiam ser melhor explicados, mas também podemos entender essa omissão como algo proposital – feito para que a personagem não seja um mistério só para quem está na tela. Só recebemos sobre ela as informações que os irmãos Bloom já possuem. Aliás, essa parece mesmo ser a intenção, pois essa omissão se repete em uma cena que Penelope escapa de ser presa. Ela não revela aos outros o que fez para ludibriar as autoridades e deixa os espectador com a mesma curiosidade.

Uma das passagens que melhor resume “Vigaristas” foi escrita por Renato Silveira em seu Blog “Cinematório”[1]. Segundo Renato, “na primeira metade de ‘Vigaristas’ ele (Rian Johnson) parece um veterano, tamanha sua facilidade em brincar com a narrativa.” De uma forma geral os elementos do filme pontuados pelo crítico são pertinentes – entre eles o que se refere a atuação do elenco e direção. Entretanto, não concordo com Silveira quando ele classifica como negativa a tentativa do diretor de ludibriar o espectador. Ela faz parte do “golpe” e ajuda a criar um envolvimento maior de quem assiste com o que vemos na tela.

“Vigaristas” é um bom filme, e muito acima da média das comédias que estrearam no Brasil em 2009. Mas algumas cenas poderiam ser cortadas, como o momento em que Bloom e Penelope se conhecem. A moça mostra a seu “pretendente” suas habilidades diversas – aquelas que adquiriu durante seu tempo ocioso no confinamento doméstico – mas Rian peca aí pelo exagero, como se apenas ter tempo fosse o suficiente para desenvolver qualquer tipo de aptidão.

Com figurinos de Beatrix Aruna Pasztor que dão ao filme um charme e uma pitada retro, Johnson consegue aliar diversos elementos dos antigos filmes de bandidos e transportá-los para a atualidade sem perder a veracidade. Os carros usados pelo grupo durante os golpes são outro ponto alto. Modelos antigos com cara de veículos de colecionador ajudam a compor a bela plástica de “Vigaristas” e a reforçar a referência ao passado.

FICHA TÉCNICA[2]

titulo original: (The Brothers Bloom)

lançamento: 2008 (EUA)

direção: Rian Johnson

atores: Rachel Weisz , Adrien Brody , Mark Ruffalo , Rinko Kinkuchi , Robbie Coltrane

duração: 113 min

Nenhum comentário:

Postar um comentário