
Logo no início o estilo usado para abertura e a trilha sonora de “Vigaristas” (The Brothers Bloom, EUA, 2008) nos remetem aos tradicionais filmes de gângster. Porém, a apresentação dos irmãos Bloom (protagonistas do longa) ainda crianças trajando camisa branca, casacos, tênis e chapéus pretos, aliada a vilania natural do mais velho e sua voz macabra, já mostra alguns elementos satíricos do segundo filme dirigido por Rian Johnson.
Aliás, os primeiros minutos de projeção representam uma das sequências mais importantes para a continuidade do filme. É a partir deles que conhecemos os talentos de Stephen (Mark Ruffalo), a inocência/insegurança e o romantismo de Bloom (Adrien Brody) e a relação de dependência mútua existente entre os dois órfãos. A rejeição dos diversos pais adotivos e o primeiro golpe planejado – tudo apresentado pela voz de um narrador com tons de velho-oeste – é a melhor introdução entre as mais recentes comédias. A volta para o presente mostra que tudo isso se repete na vida adulta dos irmãos.
A dupla cresce e rapidamente Johnson nos apresenta a vítima da vez, Penelope (Rachel Weisz). Uma moça com mais de trinta anos que foi criada entre quatro paredes, isolada do mundo exterior e do convívio social. A inocência da personagem gera algumas cenas de humor pastelão que caem como uma luva nas mãos de Rachel. A atriz, que não tem origens na comédia, dá um tom suave e muito natural a sua milionária, tornando fácil a tarefa de se empolgar junto com ela em cada aventura vivida pelo grupo de golpistas do qual ela passa a fazer parte.
Mas “Vigaristas” não é uma comédia pura. O diretor também soube valorizar bem os momentos de ação e tensão do longa. Com trilha sonora sempre em sincronia com o que vemos na tela e ótima fotografia de Steve Yedlin, fica difícil lembrar que se trata de uma comédia e não levar a sério as armações do grupo.
Uma segunda conferida no filme possibilita perceber que Rian Johnson, como em um bom suspense, deixa algumas pistas importantes para o desenrolar da trama que podem passar despercebidas na primeira vez que assistimos. Além disso, duas surpresas positivas podem ser encontradas no longa. Primeiro: “Vigaristas” é muito mais que uma comédia. Há nele fortes elementos de humor, mas a obra também cumpre com competência as funções de ação/suspense e aventura. Segundo: a forma como os golpes executados formam uma teia que vai interligando tudo, fazendo com que várias vezes pensemos, erroneamente, estar diante do final.
Outro ponto forte de “Vigaristas” é a sincronia existente entre o elenco. Mesmo Bang Bang (Rinko Kinkuchi), que quase não tem falas, se encaixa perfeitamente na “quadrilha”. Um pouco mais de atenção mostra que alguns elementos a respeito da relação da oriental misteriosa com o mundo do crime poderiam ser melhor explicados, mas também podemos entender essa omissão como algo proposital – feito para que a personagem não seja um mistério só para quem está na tela. Só recebemos sobre ela as informações que os irmãos Bloom já possuem. Aliás, essa parece mesmo ser a intenção, pois essa omissão se repete em uma cena que Penelope escapa de ser presa. Ela não revela aos outros o que fez para ludibriar as autoridades e deixa os espectador com a mesma curiosidade.
Uma das passagens que melhor resume “Vigaristas” foi escrita por Renato Silveira em seu Blog “Cinematório”. Segundo Renato, “na primeira metade de ‘Vigaristas’ ele (Rian Johnson) parece um veterano, tamanha sua facilidade em brincar com a narrativa.” De uma forma geral os elementos do filme pontuados pelo crítico são pertinentes – entre eles o que se refere a atuação do elenco e direção. Entretanto, não concordo com Silveira quando ele classifica como negativa a tentativa do diretor de ludibriar o espectador. Ela faz parte do “golpe” e ajuda a criar um envolvimento maior de quem assiste com o que vemos na tela.
“Vigaristas” é um bom filme, e muito acima da média das comédias que estrearam no Brasil em 2009. Mas algumas cenas poderiam ser cortadas, como o momento em que Bloom e Penelope se conhecem. A moça mostra a seu “pretendente” suas habilidades diversas – aquelas que adquiriu durante seu tempo ocioso no confinamento doméstico – mas Rian peca aí pelo exagero, como se apenas ter tempo fosse o suficiente para desenvolver qualquer tipo de aptidão.
Com figurinos de Beatrix Aruna Pasztor que dão ao filme um charme e uma pitada retro, Johnson consegue aliar diversos elementos dos antigos filmes de bandidos e transportá-los para a atualidade sem perder a veracidade. Os carros usados pelo grupo durante os golpes são outro ponto alto. Modelos antigos com cara de veículos de colecionador ajudam a compor a bela plástica de “Vigaristas” e a reforçar a referência ao passado.
FICHA TÉCNICA
titulo original: (The Brothers Bloom)
lançamento: 2008 (EUA)
direção: Rian Johnson
atores: Rachel Weisz , Adrien Brody , Mark Ruffalo , Rinko Kinkuchi , Robbie Coltrane
duração: 113 min